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Por que ler o livro Coronavírus: O trabalho sob o fogo cruzado

29 de julho de 2020

resenha escrita por Tatiane Araújo dos Santos, Docente da Escola de Enfermagem da UFBA, Diretora de Comunicação do Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia e Membro do Comitê em Enfermagem para o Enfrentamento da Covid na Bahia

O livro “Coronavírus: O trabalho sob o fogo cruzado” do professor Ricardo Antunes foi lançado pela editora Boitempo no “olho do furacão” da pandemia no Brasil: curva de contágio e de mortos crescente, potencialmente devido à ausência de políticas do governo federal que protejam a população. Ao contrário, o governo federal aposta e operacionaliza suas ações na necropolítica.

Neste cenário, um grupo em especial sofre em todos os aspectos as consequências desta pandemia: a “classe-que-vive-do-trabalho”. É sobre este grupo que Ricardo Antunes realiza as suas reflexões.

No livro, Antunes inicia fazendo um resgate do cenário pré-pandêmico da crescente precarização, vulnerabilização dos trabalhadores e perdas no direito do trabalho. Antes da pandemia já era claro a ausência de proteção social aos/às mais vulneráveis e aqui as questões de cor, gênero e classe se acumulam: os mais vulneráveis já eram mulheres, negras e pobres.

Neste cenário pré-pandêmico também já era brutal a informalidade e “uberização” do trabalho. No Brasil, chama atenção o desemprego por desalento ou desalento do desemprego, como bem chama atenção o autor.
É nesse contexto histórico que a pandemia chega no mundo e no Brasil. Tragédia anunciada, dado o sistema de metabolismo social capital – que é destrutivo na sua lógica ilimitada de expansão e de produção cada vez maior de valor e – que corrói insanamente o meio ambiente e também a força de trabalho.

Segundo Antunes, o que observamos agudizar nesse período de capital pandêmico – termo cunhado pelo autor para caracterizar este período – são as desigualdades já existentes no período pré-pandêmico, agora com um “toque” de crueldade: o abandono total dos mais vulneráveis e a exploração extrema da força de trabalho. A “classe-que-vive-do-trabalho” se vê na encruzilhada morrer por Covid-19 ou morrer de fome.

A pandemia aprofundou as segregações de classe, cor e gênero. Vide no Brasil em que as trabalhadoras que mais morrem são as do campo da enfermagem: mulheres, em geral de cor parda/negra. É também sintomático que o primeiro caso de óbito por Covid-19 no Brasil tenha sido de uma empregada doméstica que foi contaminada por seus patrões.

Antunes se interroga qual o futuro do trabalho. E nas suas reflexões aponta algumas perspectivas. Uma das primeiras é que precisamos superar o equívoco do fim do trabalho. Precisamos ainda superar “o sonho dourado” que o capital nos vende de que individualizados obteremos o maior sucesso. Contudo, em outra vertente aponta também que as formas de trabalho gestadas durante a pandemia como o home office e o teletrabalho “terão significativo crescimento” no pós-pandemia.

Para os/as trabalhadores/as isto significa maior individualização, maior desarticulação, menos relações solidárias, distanciamento da organização sindical dentre outras.

Por fim, Antunes nos provoca a pensar e inventar um novo modo de vida que vá de encontro ao metabolismo social do capital. Conseguiremos? Não conseguiremos? As possibilidades estão dadas e é mais uma vez a capacidade de organização da “classe-que-vive-do-trabalho” que poderá fazer a diferença no fiel desta balança.

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